HUGO CANTEGREL
HUGO CANTEGREL develops an artistic practice centered on the image as a space of mental projection and narrative, exploring the boundaries between reality and fiction. Starting from photography and expanding into media such as metal, neon, or ceramics, he constructs visual dispositifs that oscillate between representation and abstraction, activating fragmentary narratives and moments of fiction.
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How would you describe your practice? My practice engages in a reflection on the image as a space of mental projection and narrative. The work is constructed through a back-and-forth between representation and abstraction, between legibility and opacity. I like to question the boundaries between reality and fiction, exploring the nebulous domain where the real and the imaginary merge. I seek to expand our understanding/apprehension of the world by reassessing the nature of memory and the tangible world. My work originates in photography; I use a wide variety of media, such as metal, neon, or ceramics, suggesting an iconography and advertising tools. Although often static, my work frequently expresses movement, a trace: the reminiscence of something, of an action, an emotion, or a moment. I orchestrate my exhibitions according to a dramatic composition, where the spectral presence of objects, lights, and photographs guides and shapes the visitor’s experience. I aim to offer a journey through my works, transforming this monologue into a complex narrative with multiple entry points and layers of understanding.
How do you define your work process? My process resembles a progressive montage. It is an open methodology based on accumulation, displacement, and the reconfiguration of forms. I privilege a non-linear temporality, in which each stage may question the previous ones. The work advances through successive layers, following a logic of trials, corrections, and transformations. I always work in series and in parallel. There is therefore a constant questioning of the purpose of the work, its relationship to other series, and its reception by the viewer.
How does narrative emerge in your work? Narrative manifests itself in an implicit and fragmentary way. It is not narrative in the traditional sense, but rather a construction of signs, motifs, and situations that activate regimes of fiction. The viewer is invited to produce their own narrative reading from these fragments, in an active relationship with the work. In fact, my work is based on the idea of an interior landscape. When I arrive at someone’s house, I am confronted with a multitude of objects, memories, artworks, photographs. My gaze then stops on one thing, and from there the narration begins—my narration. Not only through the person who displayed those objects, but through me, the viewer, who arrives with my own baggage, my own memory, my own centers of interest and references. It is with this idea that I construct my work, knowing that, in any case, it will ultimately escape me.
To what extent do “error” or chance play a part in your practice? I do many tests. As an artist, I believe I provoke errors and chance in order to try to master them afterwards. My practice clearly separates the time of reflection from the time of production. I create many installations, formal drawings, or deliberately attempt to provoke error. But when I move into the production phase, I am in execution mode, and I try as much as possible to avoid mistakes. There is, however, one element that is integral to my practice: doubt. It is the desire to understand the semantics of the work and of each individual piece.
HUGO CANTEGREL desenvolve uma prática artística centrada na imagem como espaço de projeção mental e narrativa, explorando as fronteiras entre realidade e ficção. Partindo da fotografia e expandindo-se para meios como o metal, o néon ou a cerâmica, constrói dispositivos visuais que oscilam entre representação e abstração, ativando narrativas fragmentárias e momentos de ficção.
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Como descreverias a tua prática? A minha prática insere-se numa reflexão sobre a imagem como espaço de projeção mental e narrativa. O trabalho constrói-se num vaivém entre representação e abstração, entre legibilidade e opacidade. Gosto de questionar as fronteiras entre realidade e ficção, explorando o domínio nebuloso em que o real e o imaginário se confundem. Procuro ampliar a nossa compreensão/apreensão do mundo, reavaliando a natureza da memória e do mundo tangível. O meu trabalho tem origem na fotografia; utilizo uma grande variedade de meios, tais como metal, néon ou cerâmica, sugerindo uma iconografia e ferramentas publicitárias. Embora muitas vezes estático, o meu trabalho expressa frequentemente um movimento, uma pista: a reminiscência de algo, de uma ação, de uma emoção ou de um momento. Orquestro as minhas exposições de acordo com uma composição dramática, onde a presença espectral de objetos, luzes e fotografias guia e manipula a experiência do visitante. Procuro oferecer uma viagem através das minhas obras, transformando este monólogo numa narrativa complexa, com múltiplas entradas e camadas de compreensão.
Como caracterizas o teu processo de trabalho? O meu processo assemelha-se a uma montagem progressiva. É uma metodologia aberta, baseada na acumulação, na deslocação e na reconfiguração das formas. Privilegio uma temporalidade não linear, em que cada etapa pode questionar as anteriores. O trabalho avança por camadas sucessivas, numa lógica de ensaios, correções e transformações. Trabalho sempre em série e de forma paralela. Há, portanto, um questionamento permanente entre a finalidade do trabalho, a sua relação com outras séries e a sua apreensão pelo espectador.
De que forma surge a narrativa no teu trabalho? A narrativa manifesta-se de forma implícita e fragmentária. Não se trata de uma narrativa no sentido tradicional, mas sim de uma construção de sinais, motivos e situações que ativam regimes de ficção. O espectador é convidado a produzir a sua própria leitura narrativa a partir desses fragmentos, numa relação ativa com a obra. Na verdade, o meu trabalho baseia-se na ideia de paisagem interior. Quando chego à casa de alguém, deparo-me com uma quantidade de objetos, recordações, obras, fotografias. Então, o meu olhar pára numa coisa e é a partir daí que se constrói a narração, a minha narração. Não apenas pela pessoa que expôs esses objetos, mas por mim, espectador, que chego com a minha própria bagagem, a minha própria memória, os meus próprios centros de interesse e referências. É com essa ideia que construo o meu trabalho, sabendo que, de qualquer forma, ele acabará por me escapar.
Até que ponto o “erro” ou o acaso fazem parte da tua prática? Faço muitos testes. Acredito que, como artista, provoque erros e acasos para tentar dominá-los posteriormente. A minha prática separa muito o tempo de reflexão do tempo de produção. Faço muitas montagens, desenhos formais ou, precisamente, tento provocar o erro. Mas quando passo para a fase de produção, estou na execução, por isso tento ao máximo evitar o erro. Mas há uma coisa que faz parte integrante da minha prática: a dúvida. É a vontade de compreender a semântica do trabalho e de cada obra.