28 Oct — 24 Nov 2023 | ÉVORA

Relógio de Sol

Pedro Barassi & Pedro Liñares

Nessa noite dormi muito mal. Estava calor e, ao sair de casa, esqueci-me dos óculos, o que me causou um enorme desconforto, pois não conseguia ver com a intensidade da luz do dia. Quando cheguei aqui, lembro-me de atravessar um longo corredor e virar à direita depois da máquina de café, onde havia uma pequena porta de madeira que dava acesso ao último piso do edifício. De repente, perco-me na visão de uma espécie de varanda. Todas as memórias são iguais às de ontem; no entanto, eu já não sou o mesmo. É hora de almoço e oiço o ruído das máquinas e vozes distintas à minha volta. Tudo aquilo que poderia tornar-se, com o tempo, apenas mais um hábito no percurso errático das possibilidades transformou-se no meu maior medo. Já não sabia se tinha atravessado duas ruas ou a mesma rua duas vezes.

Lá fora, as margens do rio, o fumo produzido pelos navios de carga e, a poucos passos, um pequeno refúgio voltado a poente e, mais abaixo, a escadaria de mármore. O dia desloca e confunde as sombras à minha volta e, nesse instante, o meu sonho desfaz-se. O hábito de inventar situações proféticas e o rasto dos gestos quotidianos deixaram impressões sobre a realidade e criaram diante dos meus olhos uma cena impossível. Os volumes que desenhavam uma penumbra oblíqua eram mais do que estruturas de betão. Eu, moldado pelo tempo e por uma vida bárbara, já não sabia escutar as palavras. A partir do instante de vertigem, em que passado e presente se confundem, nada volta a fazer sentido.”

Em Relógio de Sol, apresentada na Galeria PLATO, Pedro Barassi e Pedro Liñares apresentam uma instalação vídeo e uma série de pinturas num ambiente imersivo. A exposição, que se desenvolve em torno da curta-metragem homónima, aborda questões relacionadas com a dicotomia entre o profético e o mundano, a rotina e o extraordinário. Filmado no antigo atelier dos artistas, em Lisboa, o filme é atravessado por uma atmosfera pessoal e contemplativa, onde personagens, objetos e espaço se fundem numa espécie de devaneio. No filme, a personagem principal e o argumento foram criados em coautoria, tal como a pintura Da condição de vertigem (Na condição de cenário), tornando possível a criação de um novo ponto de referência. Esta abordagem acaba por manifestar-se tanto nas obras como na própria conceção da exposição.

Tal como em Prosa do Observatório¹, de Julio Cortázar, são propostas associações análogas entre elementos distantes. Neste livro, repleto de símbolos, histórias e reflexões, a prosa poética e as fotografias interpelam-se mutuamente e adquirem múltiplos significados, convidando o leitor a observar o entre: “essa maneira de estar entre, não acima nem atrás, mas entre, [...] ao abrigo de outras horas [...] buraco na teia do tempo” (p. 9). Do mesmo modo, em Relógio de Sol, as pinturas produzidas e selecionadas sugerem um diálogo não linear e complementar com o filme, tendo sido criadas especificamente para esta exposição.

“That night I slept very badly. It was hot and when I left the house I forgot my glasses, which caused me great discomfort as I couldn’t see in the strong daylight. When I arrived here I remember crossing a long corridor and turning right after the coffee machine where there was a small wooden door that led to the top floor of the building. I suddenly lose myself in the vision of some kind of balcony. All the memories are the same as yesterday, anyway, I’m not the same. It’s lunchtime and I hear machine noises and distinct voices around. Everything that could be, over time, just another habit in the erratic journey of chances, became my greatest fear. I no longer knew if I had crossed two streets or the same street twice.

Outside the banks of the river, the smoke produced by cargo ships, and a few steps away, a small refuge facing west and, further down, the marble staircase. The day displaces and confuses the shadows around me and at this moment my dream falls apart. The habit of inventing prophetic situations and the trail of everyday gestures left impressions on reality and created an impossible scene before my eyes. The volumes that formed a penumbra at an angle were more than structures made of concrete. I, worked by time and barbaric life, no longer knew how to listen to words. From the moment of vertigo, where the past and present become confused, nothing makes sense anymore.“

In ‘Relógio de Sol’, exhibited at Galeria PLATO, Pedro Barassi and Pedro Liñares present a video installation and a series of paintings in an immersive environment. The exhibition, which revolves around the short film of the same name, addresses issues related to the dichotomy between the prophetic and the mundane, the routine and the extraordinary. Filmed in the artists’ old studio in Lisbon, the film is full of a personal and contemplative atmosphere, where characters, objects, and space mix in a kind of reverie. In the film, the main character and the script were created in co-authorship, as was the painting “Da condição de vertigem (Na condição de cenário)”, which made possible the creation of a new reference point. This approach ends up manifesting itself both in the works and in the conceptualization of the exhibition itself.

Just as in “Prosa do Observatório”1 by Julio Cortázar, analogous associations are proposed between distant elements. In the book full of symbols, stories, and reflections, poetic prose and photographs interpellate each other and gain multiple meanings, and the reader is invited to observe the in-between: “this way of being between, not above or behind, but between, [ ...] sheltered from other hours [...] hole in the web of time” (p. 9). Likewise in ‘Relógio de Sol’ the paintings produced and selected suggest a non-linear and complementary dialogue to the film, having been created specifically for this exhibition.

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