11 May — 8 Jun 2024 | ÉVORA
Queridas Bestas
Curated by Diogo Ramalho
Abel Mota
Desde as primeiras vezes em que visitei o Abel no seu atelier, reparei num conjunto numeroso de ações que aconteciam dentro das margens de um caderno banal. Mais tarde descobri que, para além desse caderno, existiam imensos outros semelhantes. E todos eles escondiam em si as mais diversas imagens e notas, quase como didascálias a implorarem por uma interpretação para lá dos limites daquelas páginas.
Estes cadernos espelham literalmente a forma de pensar do Abel, caracterizada por uma pesquisa antropológica e por um fervilhar constante em apreender tudo aquilo que o rodeia. Abel Mota (n. 1999) utiliza a pintura como uma ativação de uma curiosidade quase inesgotável. Assimila com a mesma intensidade referências das mais diversas proveniências e articula-as entre si de forma espontânea. Cruza elementos provenientes do folclore português, brasileiro ou nórdico, do cinema da Europa de Leste ou da sua coleção privada de máscaras e objetos, compondo um vocabulário que se torna progressivamente mais complexo.
Queridas Bestas é a apropriação do espaço físico da PLATO para a encenação do seu próprio imaginário, num jogo provocador de metáforas e prosopopeias. Parte da ideia de bestiário, que se converte em guião para várias ações que se desenrolam na galeria. A narrativa centra-se na metamorfose entre homens e animais, aos quais podemos chamar, ternamente, de "bestas". Cada pintura apresenta uma encenação individual, que joga de forma estruturalmente teatral com várias camadas de fingimento, uma mise en abyme dentro da própria pintura. A pele que imprime uma identidade é simultaneamente máscara e fato; é tanto elemento central como adereço ao longo das várias mises en scène. Para as suas obras importa sempre uma ação ou narrativa, geralmente de carácter aberto e maleável. Assume nelas um vazio destinado a acolher outros significados possíveis. As "bestas" são personagens observadoras, que nos seduzem e fazem de nós seus voyeurs. À semelhança das criaturas fantásticas apresentadas nos bestiários, também estas são selvagens e apresentam-se de forma ambígua. Abel Mota brinca com elas e imprime-lhes várias "histórias" de um quotidiano individual ou coletivo. Forma-se, deste modo, uma proximidade entre criador, criação e espectador, num jogo inocente, prestes a ser corrompido a qualquer momento.
Since the first time I visited Abel in his studio, I noticed a numerous set of actions that took place within the margins of a banal notebook. After discovering this notebook, I found many similar ones. And they all hid the most diverse images and notes, almost like instructions begging for an interpretation outside the limits of those pages.
These notebooks mirror Abel’s way of thinking, characterized by anthropological research and a constant desire to learn everything surrounding him. Abel Mota (b. 1999) uses painting to activate his inexhaustible curiosity. He assimilates references from the most diverse sources with the same intensity and articulates them together spontaneously. He combines different elements from Portuguese, Brazilian, or Nordic folklore, Eastern European cinema, or his private collection of masks and objects, creating a vocabulary that gradually becomes more complex.
‘Dear Beasts,’ is the appropriation of Plato’s physical space to stage his imagination, in a provocative game of metaphors and prosopopoeia. It starts with the idea of a bestiary, which becomes a script for various actions that take place in the gallery. The narrative focuses on the metamorphosis between men and animals, which we can tenderly call ‘beasts’. Each painting presents a multi-layered theatrical staging that revolves around pretense, a mise-en-abyme within the painting itself. The skin that forms an identity is simultaneously a mask and a suit. It is both a central element and a prop throughout the various mise-en-scènes. For his works, an action or narrative always matters, generally of an open and manageable nature. He assumes in them a void intended to accommodate other possible meanings. The ‘beasts’ are observant characters, who seduce us and make us their voyeurs. These fantastic creatures are presented ambiguously, much like the creatures in bestiaries. Abel Mota plays with them and encapsulates in them various stories of an individual or collective daily life. In this way, a proximity is formed between the creator, creation, and spectator, in an innocent game, ready to be corrupted at any moment.